Por Mariana Guerin
A ExpoLondrina 2026 se consolidou mais uma vez como um dos
principais palcos de difusão do conhecimento no agronegócio brasileiro,
reunindo pesquisadores de destaque que estão na linha de frente da inovação
científica. Com projetos que vão da biotecnologia e sustentabilidade no campo
até o consumidor final, esses especialistas compartilharam experiências, resultados
e perspectivas que reforçam o papel da ciência como motor do desenvolvimento
rural e da competitividade do setor.
A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, alcançou
um marco histórico ao ser incluída na lista TIME100 2026 como uma das pessoas
mais influentes do mundo na categoria "Pioneiros". O reconhecimento
aconteceu na última quarta-feira (15), mesmo dia em que ela palestrou no
Pavilhão Smart Agro sobre como o uso de microrganismos tem revolucionado a
agricultura ao promover ganhos produtivos e redução nos custos, além de
contribuir diretamente para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
Mariangela celebra décadas de dedicação à ciência
brasileira, destacando seu papel fundamental na substituição de fertilizantes
químicos por insumos biológicos. Para a cientista, essa nomeação não é apenas
uma vitória pessoal, mas uma validação do protagonismo do Brasil em práticas
sustentáveis e na promoção da "Saúde Única", que integra a saúde do
solo, das plantas e dos seres humanos.
Engenheira agrônoma e doutora em Ciência do Solo, Mariangela
decidiu sua vocação ainda na infância e foi mentorada pela renomada Johanna
Döbereiner. Ao longo de sua carreira na Embrapa, iniciada em 1982, ela
desenvolveu mais de 30 tecnologias e publicou centenas de estudos que
revolucionaram a produtividade agrícola. Suas inovações em fixação biológica de
nitrogênio e coinoculação da soja provaram que é possível obter altos
rendimentos sem fertilizantes nitrogenados, prática hoje adotada em grande
parte das lavouras brasileiras.
O impacto do seu trabalho é mensurável tanto econômica
quanto ambientalmente: somente em 2025, suas tecnologias geraram uma economia
estimada de US$ 25 bilhões ao dispensar químicos, além de evitar a emissão de
mais de 230 milhões de toneladas de CO2. Acumulando honrarias como o World Food
Prize 2025, o "Nobel da Agricultura", e posições de destaque nos
rankings da Universidade de Stanford, a pesquisadora consolidou-se como a
principal referência brasileira em microbiologia do solo e uma das vozes mais
influentes da agricultura regenerativa global.
Da sala de aula para o campo
Na sexta-feira (17), o engenheiro agrônomo João Américo
Maccori Barboza apresentou os resultados do trabalho que o colocou em destaque
na lista Forbes Under 30. Com apenas 25 anos, ele está à frente da DioxD,
startup sediada em Londrina que alcançou a marca de 580 mil hectares tratados
na safra 2025/26. A tecnologia criada por ele atende 160 produtores em dez
estados brasileiros e iniciou a expansão para o Paraguai, utilizando um
composto de seis gases para extrair o potencial genético máximo de culturas
como soja, milho, feijão e algodão.
A DioxD surgiu a partir de uma pesquisa acadêmica transformada em negócio com apoio da Sociedade Rural do Paraná, após reconhecimento internacional do pesquisador. A tecnologia utiliza dióxido de carbono e outros gases para tratar sementes diretamente nos bags, sem necessidade de movimentação mecânica ou umidade, garantindo maior preservação do material e alta eficiência operacional, com capacidade atual superior a 300 toneladas por hora.
O principal diferencial da solução está no impacto agronômico: o tratamento estimula o desenvolvimento radicular das plantas, tornando-as mais resistentes a estresses hídricos e mais eficientes na absorção de nutrientes. Na prática, produtores de soja têm registrado aumento médio de quatro sacas por hectare, com um custo relativamente baixo, o que pode gerar retorno até oito vezes maior na colheita.
A validação da tecnologia ocorreu no Matopiba, com adoção por grandes produtores, e a empresa cresceu mantendo uma estrutura enxuta e familiar. Com atuação em diversas culturas, João Américo Barboza conseguiu combinar profissionalização financeira com gestão próxima, tendo iniciado seus testes no interior do Paraná e expandido sua presença no agronegócio nacional.
Embaixador das Indicações Geográficas do Brasil
Engenheiro de formação, Rui Morschel deixou a carreira no
mercado financeiro para investir na gastronomia e, desde 2017, o cozinheiro usa
as redes sociais para ensinar receitas e dicas que facilitam o dia a dia na
cozinha. No sábado (11), ele abriu a programação da Cozinha Sabores, que
funciona dentro da Expo Sabores, ensinando uma receita de croquete de Cracóvia,
inspirada em preparações tradicionais e substituindo ingredientes clássicos por
um embutido suíno típico de Prudentópolis, com o objetivo de valorizar
produtores locais.
Sua paixão pelos ingredientes o levou longe e hoje ele é embaixador das Indicações Geográficas (IGs) do Brasil pela Associação Brasileira de Indicações Geográficas e atua como cozinheiro da Secretaria de Turismo do Paraná, levando o tradicional barreado para feiras nacionais e internacionais pela América do Sul e Europa, onde promove a cultura caiçara do Paraná.
Segundo Morschel, hoje o Paraná é líder nacional no uso do selo de valorização de produtos locais. “A certificação funciona como um mecanismo de proteção e reconhecimento, beneficiando o consumidor com segurança alimentar e o pequeno agricultor ao eliminar intermediários desnecessários na cadeia produtiva”, explicou o embaixador.
Para ele, mais do que uma garantia de qualidade técnica, as
IGs são ferramentas de transformação social que elevam o status de itens
tradicionais ao nível de produtos de luxo, gerando orgulho e sustentabilidade
econômica para a agricultura familiar. “O propósito central é incentivar a
valorização do patrimônio regional, conectando a história do produtor
diretamente ao consumidor final”, concluiu Morschel.
Professor da USP entre os 2% de cientistas mais influentes
do mundo
Com uma trajetória acadêmica sólida e internacional, o Prof. Dr. Pietro Sampaio Baruselli se consolidou como um dos principais nomes da ciência aplicada à pecuária no mundo. Graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, com especialização na Universidade de Turim, na Itália, e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), ele acumula décadas de atuação em pesquisa, ensino e inovação em reprodução animal. Durante o XII Simpósio de Eficiência em Produção e Reprodução Animal, que aconteceu na quinta-feira (16) na ExpoLondrina, ele apresentou os desafios e perspectivas atuais para os programas reprodutivos em fêmeas jovens.
Professor titular da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e pesquisador nível 1A do CNPq, Baruselli tem uma produção científica impressionante com mais de 300 artigos publicados e formação de dezenas de mestres e doutores, consolidando uma contribuição decisiva para o avanço da pecuária de corte e leite.
Reconhecido globalmente, ele ainda foi listado pela Universidade de Stanford entre os 2% de cientistas mais influentes do mundo por vários anos consecutivos, além de ocupar posições estratégicas em entidades internacionais como a International Buffalo Federation.
Seu trabalho é diretamente responsável por avanços na
eficiência reprodutiva e no uso de biotecnologias que elevam a produtividade
dos rebanhos, impactando a competitividade do agronegócio brasileiro no cenário
global.
Cocriagro é destaque nacional entre agtechs
Além desses personagens, o Cocriagro, hub de tecnologia da
Sociedade Rural do Paraná, aparece entre os ambientes de inovação mais
mencionados do país no Radar Agtech Brasil 2025, principal levantamento
nacional sobre startups do agronegócio divulgado no início deste ano. A
pesquisa é realizada pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens.
De acordo com o estudo, o Cocriagro foi o ambiente com maior
número de menções entre as agtechs respondentes, figurando à frente de
organizações como Sebrae, Cubo Itaú e PwC Agtech Innovation.
Para Tatiana Fiuza, diretora de inovação da SRP, o resultado
está diretamente relacionado ao papel que o hub vem consolidando no
ecossistema. “O Cocriagro atua próximo de sua comunidade. Sempre tratamos as
startups para além do banco de dados. Nosso objetivo é de fato atuar na conexão
entre tecnologia e mercado. O reconhecimento das próprias startups indica que
estamos no caminho”, afirma.
O levantamento identifica 2.075 agtechs no Brasil,
distribuídas em 468 municípios, além de 390 ambientes de inovação, entre
incubadoras, aceleradoras, hubs e parques tecnológicos. Os dados indicam um
ecossistema estruturado, com presença crescente de organizações que atuam na
conexão entre tecnologia e mercado.
“O Paraná construiu um ambiente de inovação muito conectado
ao setor produtivo. A presença de instituições como a Sociedade Rural do Paraná
e de cooperativas, aliada aos ambientes de inovação, cria uma dinâmica onde a
tecnologia já nasce com aplicação prática”, destaca Tatiana Fiuza que, em 2022,
também foi indicada na lista da Forbes entre as 20 mulheres que atuam no Brasil
com inovação e agtechs.
CEO do Cocriagro, coordenadora da Agro Valley Londrina e
diretora de Inovação da Sociedade Rural do Paraná, Tatiana é mestre em
Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia e mestre em Geografia e
atua na construção de Sistemas de Gestão da Inovação. Em 2022, foi indicada
pelo Radar Agtech 2022 na lista de “Mulheres que inspiram outras mulheres no
agro”.